quinta-feira, 7 de março de 2013
De cara lavada
Martha Medeiros
hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos
o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos
a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos
a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos
aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos
coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
"Eu sou do mato, sou da brisa.
Sou da relva, da montanha, da água, dos pés descalços, do simples, do café quentinho no bule, do olhar pela janela.
Do dia amanhecer com a canção dos pássaros, da prosa leve, da pipa no céu, do sorriso da criança.
Da canção na viola.
Sou das árvores, das flores, de colher a fruta no pé, do animal de estimação, da amizade gratuita, do amor comprometido, do bilhetinho,de mãos dadas, de comer lambuzando os dedos.
Do vestidinho leve, da chinela no pé. Sou do tempo em que o amor fazia a festa homem. Sou da fase da fidelidade, do poema livre da gramática mas preso à sensibilidade.
Sou do tempo da paz, sou tal como diz a canção: Por tanto amor, por tanta emoção a vida me fez assim.
Me desculpa mundo, mas sou do tempo da inocência, dos sonhos e da alegria."
(Ita Portugal)
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